Can I Be Your Lover?

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Um entreolhar, um convite. Passam os anos, mantém-se a cumplicidade. Um sorriso e ali estão as faíscas finais. Para o amor, para o etéreo. Mãos nas mãos, uma promessa. Os olhos se aproximam outra vez, os lábios se tocam. Lentamente. Intensamente. Uma delicada voracidade; a comoção profundo. O regozijo, a paixão. E o que palavras jamais descreveriam, os olhares decifravam. Os olhos limpidamente azuis dele, os olhos vividamente verde azulados dela. Ambos refletindo o mesmo sentimento, ambos captando o mesmo sentimento. Antes de toda uma vida, amantes eternamente. Um amor incondicional, desmedido e ainda assim ponderado. Compreendiam-se, queriam-se, desejavam-se. A contemplação era apenas o começo de tudo; o constante conquistar, o constante cativar – era essa a magia entre eles. E ele não conseguia parar de admirá-la, como se estivesse pedindo uma sutil e silenciosa permissão para amá-la, para desbravá-la. E ela assentiu. Lisonjeada. Fascinada. Apaixonada.

Instantes que pareciam eternos e que gostariam de eternamente poder estender. Cada segundo, um pequeno passo da gradual e constante conquista. De frente um para o outro, os olhos em perplexa abstração e admiração diante o outro. O dedo indicador direito dele tocou-lhe a pele desnuda do ombro esquerdo e, lentamente, abaixou-lhe a alça do vestido em seda rosa escuro. Ela o premiou com um sorriso; ela o correspondeu com a abertura dos botões da camisa polo lilás que ele vestia. Uma mecha do longo cabelo loiro cobriu o olho direito dela; ele, mais que depressa, afastou-a. Não podia não olhar para os oceanos verde azulados que eram os olhos dela. Ela sorriu. Tímida, mas sorriu. E ele se encarregou também da alça direita. E com um beijo, aqueceu-lhe o ombro direito. Um discreto movimento de cabeça, um tremular do olhar. O sinal dela para que ele prosseguisse.

Por um instante, perderam o contato. Físico, visual. Com tranquila pressa, ele tirou a camisa. Mãos abertas, ela tocou-lhe o peito praticamente liso, tão esparsos e escassos eram os pelos aloirados que o cobriam. Ele abriu-lhe o zíper do vestido e, antes mesmo que este escorregasse até os pés dela, lá já estava ele com as firmes mãos a desbravar uma vez mais aquele relevo que tão familiar o era, a abrir o fecho do sutiã tomara-que-caia, a percorrer a pele alva e cálida, aveludada e macia. Uma expressão de regozijo iluminou-a. Mas a nenhum dos dois bastava o simples tocar. O olhar era-lhes fundamental. Indispensável. Um beijo. Lento, demorado, intenso.

O que um dia apenas um sonho distante fora, sentia-se consumando ali; minuto a minuto, etapa por etapa. Tal como sempre acontecia, porém, ainda assim, como se fosse a primeira e a última vez. Tinham nos braços do outro o paraíso secreto; tinham no olhar do outro o conforto, a calmaria. Os anos passavam, mas o amor era inabalável; o desejo de contemplação, imutável. Ainda se beijavam. Para eles, o mundo parara. Apenas interessava-lhes prosseguir. Prosseguir e amar. Afastaram os lábios; o gosto doce do batom rosa escuro dela ainda era para ele uma vívida sensação. Era aquele o único momento em que ela não se importava em estar borrada, muito pelo contrário. Ela apenas queria amar, queria amá-lo completamente e ser amada. Um profundo arrepio ao ter a estreita cintura suavemente tocada. Sorriu extasiada. Aproximava-se o momento.

A curtos e vagarosos passos e livre de toda a roupa, caminhou de costas até a cama. Seguida de perto por ele, entre o beijar, abraçar, tocar e se contemplar. Olhar. Deixou-se delicadamente cair de costas sobre a colcha clara e macia que cobria a cama, sem em nenhum momento perder de vista as íris azuis que tanto a cativavam, e ele gentilmente a acompanhou no movimento. Sempre de frente para ela, sem nunca perder o contato visual com o sorriso doce e a expressão ainda juvenil, mas algo atrevida dela. Sorriam. Sorriam e olhavam-se com o mesmo encantamento que se olharam mais de vinte anos antes, na primeira vez. O momento inadiavelmente chegou. Ela estava ali entregue, despida de corpo e alma, à espera dele e do amor que só ele era capaz de demonstrar. E ele… Ele ali estava. Por ela, para ela. Sem temores, sem receios, perdidamente inebriado e apaixonado por aquela a quem orgulhosamente chamava de esposa havia mais de vinte anos. Porque apenas um com o outro estariam. Porque apenas um era capaz de completar o outro. Desde o primeiro dia até o fim. Corações disparados, respiração entrecortada. Pertenceram-se. Amaram-se. Plenamente. Sinceramente.

Thaís Gualberto

*Músicas que inspiraram: Air Supply – “Can I Be Your Lover?”; Alejandro Sanz – “A La Primera Persona”; Vince Gill – “Don’t Rush” [feat. Kelly Clarkson]; Paula Fernandes – “Sede de Amor”; Sandy & Junior – “O Lugar Perfeito Pro Amor Viver”;  Carla Bruni – “Quelqu’un Ma Dit” e Leona Lewis – “I Will Be”.

Economista & Escritora. 25 anos, apaixonada por ficção, música, política e coisas fofas. Aqui vocês terão resenhas e, principalmente, textos ficcionais escritos por esta que vos "fala".

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