Daddy’s Little Girl

Daddy's Little Girl
Os dois textos abaixo fazem parte, respectivamente, de “Centelha” e “Primavera”, dois dos livros que escrevo, e narram um pouco da relação entre Eduardo e sua filha mais nova, Mariana. Eis a minha singela homenagem aos grandes pais por aí, como o meu.  💗 E se quiserem ler um pouquinho mais sobre pai e filha, visitem “The Right Man / Open Arms“, que escrevi ano passado.

_ Filha, o que faz aqui? Está muito frio, querida…
Notar a presença do pai foi-lhe quase um susto; enxugou as lágrimas apressadamente e ergueu o rosto. Eduardo sentou-se ao seu lado e abraçou-a.
_ Precisava afastar-me um pouco de todos e meu quarto ainda é demasiado próximo… – murmurou Mariana, após um profundo suspiro, com a cabeça recostada ao peito do pai.
_ Entendo… Eu também precisava me afastar… – comentou, rindo algo nervoso, mas ainda assim contemplativo. – O que houve?
_ Bem, não somos a mais exemplar das famílias… Em algum momento é óbvio que vamos nos desentender… – disse, evasiva.
_ Mariana, entre nós nunca houve segredos, de nenhuma das partes… Se foge do assunto é porque foi mais grave do que pretende fazer parecer… – advertiu Eduardo, afagando-lhe o cabelo. – Por que não me conta?
Suspiros. Mariana estava relutante. Não adianta não falar… Papai não vai desistir…
_ Desculpe-me, papai, não gosto de preocupá-lo… – confessou, mordendo levemente o lábio inferior. – É que me dói tanto que meus irmãos sejam tão incompreensivos com você… Você é tudo o que temos, sozinho é o melhor pai do mundo, o nosso maior incentivador, nosso maior crítico, nosso maior ídolo, nosso melhor exemplo e tudo em que Leonardo e Patricia pensam é neles mesmos… Não falo de Alessandro porque ele é diferente, embora não exponha, sei que pensa como eu, que apenas não quer ficar mal com Paty e Leonardo, mas se você é tudo o que temos além de um ao outro, é a você quem devemos respeito, veneração, admiração, carinho, preocupação… E eles não se dão conta, e tia Amalia tampouco, de que você está vivo e que mais que ter direito, merece ser feliz, merece um novo amor…
Sem nenhuma palavra, Eduardo abraçou Mariana com mais força. Minha querida e pequena Mariana… Em nada se parece com Rosa, em nada…
_ Não se martirize por mim, querida…
_ É inevitável, papai… É tão, tão triste perceber que meus irmãos não te valorizam como merece…
E eu realmente não mereço… Meu único mérito é tê-los criado, mas nada diminui minha culpa por tê-los afastado da mãe…, pensou Eduardo, escutando calma e pesarosamente à filha.
_ Você sempre foi o melhor para nós, presente, dedicado… Não é justo que eles queiram impedir a felicidade de quem apenas nos dá orgulho e alegria… – exclamou, veemente, com lágrimas vertendo silenciosa e raivosamente.
_ Mariana, eles não têm culpa… Fazem pela memória da mãe, acham que María Luisa é uma intrusa… É natural…
_ Não, papai, não é natural… E não é porque eu tenho certeza que, apesar de sua proximidade com María Luisa, nunca vai amá-la tanto como amou a mãe de meus irmãos… E é esse sentimento, que você sempre terá, somado ao dos meus irmãos, que garante que Virginia sempre terá respeitado o seu sagrado lugar em nossa família… O lugar como única mulher a quem você de fato amou em toda a sua vida…
Como pode Mariana saber tanto sem nada saber?, perguntou-se Eduardo, intrigado, porém não surpreso com a aguçada percepção de Mariana. Se você conhecesse a verdade, Mariana… Se ao menos com você eu pudesse compartilhar esse fardo… Mas não seria justo, você é jovem e nada tem a ver com o passado…
_ E o pior de tudo é que quando te defendo, julgam-me insensível, fazem-me lembrar que sou filha de Rosa e que Rosa não chega sequer aos pés de Virginia, fato com o qual concordo, obviamente, pois sei que não sou fruto de um amor… Mas eles precisam lembrar-me disso? Não, não há necessidade… Às vezes sinto-me tão deslocada em relação a eles… E a vida é tão irônica! Minha mãe está viva e nunca se importou comigo, nunca mereceu a palavra mãe. Meus irmãos tiveram uma boa mãe, você uma boa esposa e ela se foi precocemente… É injusto, papai… Muito injusto…
Entregue ao pranto e nos braços do pai, Mariana calou-se. Se a ela doía a solidão do pai, a ele doía ainda mais a tristeza dela ou de qualquer um dos filhos. Todavia, era Mariana a mais próxima dele, a que mais se abria, a que mais demonstrava preocupação, a mais compreensiva. Tão parecida com Victoria e nem sequer é filha dela… Será um castigo ou uma benção?
_ É claro que não deveriam lembrá-la, sabem que te machuca, deveriam calar… Acho, entretanto, que estavam nervosos por causa do meu anúncio… Você já tem 17 anos e seus irmãos sempre foram tão bons com você, nunca fizeram distinção embora saibam desde bem pequenos que você não é filha da mãe deles… O que importa é que vocês são meus filhos e eu os amo igualmente e são o que de mais valioso eu tenho… Não dê atenção às palavras vãs ditas em momentos de exaltação… E mesmo que eu nunca tenha amado Rosa, eu amo a maravilhosa filha que ela me deu…
Mariana esboçou um tímido sorriso. Tinha uma grande adoração pelo pai; venerava-o, idolatrava-o. Escutá-lo era sempre confortante.
_ E você, papai, por que veio para cá? – perguntou, com um curioso e inocente olhar. – Está frio…
Seus olhos verdes contemplavam fixamente os castanhos escuros da filha. Os olhos… A cor dos olhos é a única diferença; a expressão é a mesma… O sorriso, o cabelo, a dedicação… Queria que realmente não houvesse segredo algum entre nós…


Recostado à cama, Eduardo suspirou profundamente. Um tímido sorriso e poucas palavras como resposta.
_ Ah, Victoria… Os anos são implacáveis…
_ Por que está dizendo isso, querido? – quis saber, interrompendo brevemente o ato de se pentear.
_ Por que parece que foi ontem primeira vez em que tive Mariana em meus braços e agora ela já vai se casar, formar a própria família… É difícil aceitar que a minha pequena vai partir tão brevemente…
_ Ela já não é uma criança, Eduardo… Eu mesma me casei aos dezoito anos…
_ Não é igual, Victoria… Seus pais já eram falecidos, você não tinha ninguém além de seus irmãos… Tinha de criar os próprios vínculos, vínculos que a vida lhe arrancou dura e precocemente, assim como em meu caso, que fui criado por minhas tias… Enquanto Mariana tem a todos nós…
“E ela foi uma criança tão linda, tão especial, educada, inteligente… Ela adorava ir para a empresa comigo… Acordava cedo e pedia para tia Alice vesti-la e colocar no cabelo um laço que combinasse com o vestido, quase sempre florido. Na hora em que íamos tomar o café da manhã me abraçava, me beijava e depois dizia que ia comigo para empresa, porque era lá onde ela ia trabalhar quando crescesse… E lá ia ela no carro comigo… Eu sempre levava Leonardo e Pedro quando eles chegavam do colégio, pois eles também se interessavam… E quando chegávamos, ela alegrava a todos com seu sorriso ingênuo de menina de quatro, cinco anos… Fazia questão de me dar a mão, sentia-se a primeira-dama do Grupo Arriaga… Com a outra, ela sempre carregava uma boneca… E depois ficava sentada em um cantinho do escritório, brincando com a boneca da vez e também com Mercedes, que Cristina fazia questão de levar todos os dias para que tomasse gosto pelo trabalho e também para ficar junto de Mariana… Aquelas sempre se adoraram, as verdadeiras melhores e inseparáveis amigas…”
“De vez em quando ela largava a brincadeira e sentava no meu colo… Começava a fazer perguntas, quase sempre as mesmas… E eu adorava aquilo… E ela sempre tão carinhosa… Tão adorável…”
Eduardo tinha lágrimas pelo rosto. Apesar dos anos, tinhas aquelas lembranças nítidas, vivas em sua memória. Era como um filme, cena após cena. Victoria tampouco contivera as emoções. Não vivenciara cenas daquele tipo, e era tudo o que ela mais desejara desde menina.
_ Isso para não falar em quando Mariana era apenas um bebê… Ela nasceu em um período difícil para empresa, pois Cristina estava a poucos dias de dar a luz e se afastaria tão logo se iniciassem as contrações… Eu queria estar todo o tempo com minha filha-recém nascida, mas não podia por que não tinha a quem confiar a empresa… Então tia Alice ia todos os dias comigo para cuidar de Mariana, pois eu queria que ela estivesse próxima de mim, porque ela tinha sido praticamente abandonada por Rosa e precisava mais de mim naquele momento que qualquer um de meus outros filhos… Tudo o que eu fazia era por eles, principalmente por ela… Minha menininha de olhos vivos, atentos; dedos pequeninos e muito amor para dar e receber…
“Foi tão gratificante e emocionante ouvi-la balbuciar “papai” quando tinha sete meses… E os primeiros passos, eu estava perto… Não há dinheiro capaz de pagar por momentos como estes… O primeiro dentinho que nasceu; o dia em que a escutei ler pela primeira vez, aos quatro anos; a primeira tentativa de desenhar a família; o primeiro dente que caiu; a primeira virose; o primeiro tombo; a primeira de inúmeras notas máximas no colégio; a primeira apresentação de canto; a primeira festa de formatura, ainda na escola primária; o primeiro salto alto; o primeiro estojo de maquiagem; o primeiro daqueles dias que só as mulheres conhecem; o primeiro beijo; o primeiro namorado; a festa de quinze anos; a decisão de qual carreira seguir; a formatura no colegial… Todos momentos nos quais eu estive com ela e ajudei-a a superar, no caso dos mais difíceis – os quais nem todos eu era a pessoa mais adequada para orientá-la, mas ainda assim eu me esforçava para merecer o título de melhor pai do mundo que ela sempre fez questão de ostentar com tanto orgulho e alegria…”
“E agora ela está noiva… Mais um momento que eu presenciei… E eu sei que ela está abalada… Miguel antecipou a data do casamento e ela custou a entender os motivos dele… Sei que ela compreendeu, que já está tudo bem entre os dois, que eles se amam tão intensa e verdadeiramente como nós dois nos amamos, no entanto ela ainda não aceitou… Eu sei que ela não se ente pronta para exercer as responsabilidades nas quais implica o matrimônio…”

Economista & Escritora. 25 anos, apaixonada por ficção, música, política e coisas fofas. Aqui vocês terão resenhas e, principalmente, textos ficcionais escritos por esta que vos "fala".

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