Livin’ la Vida Loca

LLVL

Não fazia muito desde que ela o conhecera. 2, 3, 4 semanas? Preferia não contar, pois contar poderia romper a magia desde o primeiro olhar notada. Havia olhares, havia atenções, havia química, havia eletricidade, ela podia sentir. E sentia-se também viva outra vez. Viva para os desejos que à distância já havia experimentado; viva para os sonhos que outra vez dominavam seus pensamentos.

Não era idealismo, mas sim os hormônios e feromônios outra vez inundando seu corpo e alterando tanto seus sentidos como seu sentimentos. Estava outra vez encantada, fisgada pelo mesmo tipo de olhar e conversa que antes já a inebriara. Ele era exatamente a centelha de que precisava para do primeiro amor olvidar e, ao mesmo tempo, aparentemente tão errado quanto o primeiro amor nunca concretizado, porém mais atencioso, mais preocupado. Tantas semelhanças, tantas diferenças…

E mesmo afastados ela podia notar os olhos dele pousados sobre ela como quem distante a contemplava, como quem parecia não saber estar sendo notado. Mas ela notava. E quando seus olhares se cruzavam, tornando impossível de se ocultar que ela notava, ela se virava abruptamente, ela ria nervosa. Seria isso flertar? E lá continuavam os doces e atrevidos olhos dele a fixá-la embora tentassem parecer olhar para longe, olhar para o nada.

Alto tocava “Smooth”, a sensual (e calientísima!) parceria de Carlos Santana com Rob Thomas. O ambiente parecia na penumbra, mas ainda assim seus olhares e sentidos pareciam atrair-se como pólos opostos de um ímã, era inegável o magnetismo. A música os hipnotizava, a aproximação parecia inevitável. Talvez ele estivesse um pouco alto, mas ela, ela não… Estava perfeitamente sóbria, porém ainda assim em êxtase. A expectativa, a ansiedade. Sentia uma onda avassaladora de sensações se apoderar de seu corpo e a cada passo dele rumo a ela, seu coração acelerava. Mas estaria ele de fato a procurar por ela? Seria ele de fato capaz de vê-la como a bela e desejável mulher que ela era?

Pela primeira vez na vida, ela se sentia sensual. E assim se sentia porque notava-se desejada, porque percebia-se enfim capaz de atrair a atenção de um homem como mais que amiga, como mulher. Ele estendeu uma das mãos a ela. Era um convite, um irrecusável convite. Sob influência do ardente ritmo latino, ele a conduziu até a pista de dança. De um lado a outro, rodopiou-a, fazendo girar seu vestido e esvoaçar seu cabelo. Toda aquela sensualidade até então aprisionada aflorou e ela nunca havia se sentido tão bem. O prazer dominou-a e a penumbra imediatamente transformou-se em luz. Viam-se nitidamente, continuavam a dançar. Ela maravilhada com sua desconhecida capacidade de bailar e ele em estado de graça por tê-la tão perto. A música, contudo, silenciou. Ela, no entanto, ouvia à própria voz a vigorosamente entoar o pré-refrão de “Livin’ La Vida Loca”, embalada pelo frenético ritmo da dança que não interromperam nem mesmo no breve instante de quietude. “She’ll make you take your clothes off/ And go dancing in the rain/ She’ll make you live the crazy life/ Or she’ll take away your pain/ Like a bullet to your brain” E em um movimento mais brusco e passional, aproximaram-se como nunca. Pupila contra pupila em olhares pungentemente apreensivos, respirações ofegantes encontrando-se, eram míseros os milímetros que separavam seus lábios. Os corações continuaram a acelerar e os dois continuaram a se acercar. Ela seria correspondida, ela seria enfim correspondida.

E então acordou. A realização não passara de um sonho. Um sonho deveras sensorial, mas ainda assim, um sonho.

Thaís Gualberto

Economista & Escritora. 25 anos, apaixonada por ficção, música, política e coisas fofas. Aqui vocês terão resenhas e, principalmente, textos ficcionais escritos por esta que vos “fala”.

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