Resenha: A Silent Voice (Koe no Katachi)

Silent Voice

Shouya Ishida é um garoto em constante fuga do tédio, o que, muitas vezes, é um sinônimo de se machucar ou de pregar peças nos outros. E é isso que o motiva a pesadas implicâncias contra Shoko Nishimiya, uma menina surda recém-transferida para a escola de Shouya. Embora a grande maioria da turma seja ativa em atormentar à nova aluna, Shouya é visto como uma espécie de líder dos ataques à menina, os quais incluem arrancar-lhe os aparelhos auditivos,  rabiscar o caderno dela com mensagens ofensivas e jogá-lo no lago, debochar da forma como ela falava e, até mesmo, agredi-la fisicamente. Ainda assim, a reação de Shoko era de sempre desculpar-se e continuar tentando ser amiga de todos.

Com 8 aparelhos danificados em 5 meses, o diretor do colégio visita a turma com o intuito de descobrir o culpado e o professor responsável denuncia Shouya. A partir daí, inicia-se o inferno na vida do garoto: todos, inclusive os que também perturbavam Shoko, viram as costas para Shouya, deixam-no assumir sozinho a culpa pelos problemas com a menina e começam a agredi-lo e excluí-lo  da mesma forma que ele fazia com Nishimiya.

Alguns anos passam e, condenado ao ostracismo, Shouya não só torna-se solitário como passa a evitar todas as pessoas ao redor dele. E isso culmina na decisão pelo suicídio. Tendo vendido tudo o que tinha e deixando todo o dinheiro obtido para sua mãe, Shouya parte em busca de Shoko para, antes de se matar, pedir-lhe perdão por tudo que a fizera quando eram crianças e devolver-lhe o caderno de comunicação que, no passado, jogara no lago do colégio. Mas o reencontro leva Shouya, agora fluente em linguagem de sinais, a finalmente compreender Shoko e, a partir daí, a repensar sua decisão e buscar redimir-se. Eis a primeira parte da animação japonesa “Koe no Katachi” e do mangá homônimo, divulgados no ocidente como “A Silent Voice“, ou, em tradução livre, “Uma voz silenciosa”.

Muitos consideram o bullying como a temática central da narrativa, porém discordo. “A Silent Voice” é, antes de tudo, uma história sobre redenção. E isso é feito magistralmente tanto no no mangá  de  Yoshitoki Oima como no filme dirigido por Naoko Yamada. É genuinamente emocionante acompanhar o amadurecimento de Shouya e todas as suas batalhas internas para provar que não é o babaca que costumava ser no primário, construir amizades e aproximar-se de Shoko e fazê-la verdadeiramente feliz. A aparição de antigos colegas de Shouya e Shoko também é fundamental para o desenrolar do enredo, deixando claro para o expectador/leitor que havia alguns que, no passado, eram muito mais covardes com Shoko que o próprio Shouya, uma vez que incapazes de assumirem sua parcela de culpa. Nesse sentido, destaque para Naoko Ueno, colega dos dois que, mesmo no colegial, continuava a ver Shoko como uma rival.

Não posso deixar de mencionar o Tomohiro, primeiro amigo que Shouya consegue fazer no colegial, é o verdadeiro alívio cômico da história, tanto em sua descrição física como em suas maneiras de falar e agir, sempre bastante pomposo, cheio de si. E, claro, Yuzuru Nishimiya, a irmã meio machona de Nishimiya que aprecia fotografar animais mortos (por um motivo bastante nobre, diga-se de passagem). Por fim, como não se emocionar com Shoko, sempre empenhada em se fazer entender, mas também profundamente perturbada por se considerar um estorvo para todos ao redor devido a sua deficiência.

Produzido pelo estúdio Kyoto Animation, que também foi responsável pela belíssima adaptação de Violet Evergarden para a Netflix, o filme “A Silent Voice” é belíssimo no que diz respeito à animação, com paisagens bem detalhadas e movimentos fluidos. Assim, para fãs de animações de qualidade, ainda que não tão atraídos pelo enredo, recomendo o filme pela beleza de sua arte.

Ressalto também que o design dos personagens no filme é bastante fiel ao que se tem no mangá, o que considero extremamente positivo. Quanto à narrativa, o filme obviamente não traz alguns elementos do mangá, mas o único desses de que senti falta (eu li o mangá antes de assistir o filme) foi o encerramento, o qual traz os personagens com cerca de 20 anos em uma espécie de festa de debutante que costuma ocorrer para os jovens japoneses de algumas cidades e mostra um pouco do que cada um passou a fazer depois do colégio.

Em ambos os formatos, considero a narrativa muito bem executada, com personagens com crescimento verossímil diante as situações que se apresentam, de modo que atribuo 9.5/10. Tanto o filme como os mangás de “A Silent Voice” pode ser encontrados na Amazon. A seguir, o trailer em inglês do filme.

Economista & Escritora. 25 anos, apaixonada por ficção, música, política e coisas fofas. Aqui vocês terão resenhas e, principalmente, textos ficcionais escritos por esta que vos “fala”.

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