Resenha: Bling Ring – A Gangue de Hollywood

Bling Ring, da jornalista americana Nancy Jo Sales, foi o último livro que li em 2015, terminando a leitura exatamente no dia 31/12! (Palmas para mim, que fiquei a 5 livros de concluir minha meta de leitura #notcool). Comprei esse livro por R$ 5,00 na Red Black Friday das Lojas Americanas em 2015 (comprei vários outros por esse preço na ocasiãohaha).

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Editora: Intrínseca

Páginas: 268

Onde encontrar: Saraiva, Americanas, Livraria Cultura

O livro basicamente se propõe a discorrer a respeito dos vários jovens de classe média alta que se envolveram nas invasões e saqueamentos das residências de várias celebridades, como Paris Hilton, Lindsay Lohan, Audrina Patridge e Orlando Bloom entre 2008 e 2009. Os ladrões levaram o que na época equivalia a cerca de 3 milhões de dólares em joias, dinheiro e artigos de grife (roupas, perfumes, relógios, bolsas etc). E o mais intrigante nisso era entender porque jovens que tinham tudo realizaram crimes tão ousados.

Nancy Jo Sales entrevistou todos os envolvidos, incluindo os pais e os advogados do jovens e algumas das celebridades que sofreram os assaltos, constatando que a motivação do bando era muito mais complexa que a simples atração pelo brilho da riqueza. Eles queriam experimentar o estilo de vida das celebridades, queriam sentir-se como as celebridades e estar na pele das celebridades. A história desses jovens foi a base para Bling Ring, o filme dirigido por Sophia Coppola e estrelado por Emma Watson.

De fato o que me motivou a ler este livro não foi o filme, o qual não assisti, mas sim tentar entender o quão perturbados eram os jovens envolvidos no crime, suas motivações e se haviam sido punidos e de que maneira. E o livro de Sales atendeu satisfatoriamente a essa expectativa.

É um tanto quanto chocante ler os relatos dos envolvidos e notar como a maioria deles fingia histericamente não ter envolvimento nenhum e/ou considerar natural invadir uma propriedade e afanar o que há nela. Ainda mais perturbadora era maneira como planejavam os roubos, pesquisando possíveis viagens dos donos da residência, buscando peças/objetos específicos em seus closets. Também espantom a maneira como Nick Prugo demonstrava devoção por Rachel, sempre fazendo tudo o que ela mandava; a afetação fútil de Alexis Neiers e sua mãe (que age como uma adolescente ainda mais desmiolada que as próprias filhas); a dissimulação de inocência de Rachel Lee, que, em minha opinião, era a mais perturbada de todo o grupo.

Um dos pontos sugeridos pela autora é a visibilidade dada a personalidades com condutas destrutivas (consumo de drogas, vida desregrada, direção perigosa etc), em geral nitidamente obcecadas com a fama (Kardashian é o primeiro nome que me vem, aquela família é completamente desfuncional), o que motivaria jovens a copiarem seu comportamento. Para mim, contudo, isso não seria um problema se os jovens contassem com pais mais atentos aos seus comportamentos, mais presentes na educação e, claro, que impusessem limites, regras desde a infância. E que fique claro que isso não é uma questão de quantidade de horas ao lado dos filhos, mas da qualidade do tempo que se passa com eles – quantas não são as mães que não trabalham e, apesar disso, delegam a criação dos filhos a terceiros?

Qualquer ladrão com espírito empreendedor conseguiria descobrir onde todas aquelas celebridades moravam. Sempre circularam mapas mostrando onde as pessoas famosas viviam, e ônibus para turistas saindo de hora em hora.

Um outro fato exposto por Sales seria a mudança de mentalidade da juventude, que antes sonhava em enriquecer pelo trabalho duro e mérito e passou a desejar o dinheiro pelo dinheiro em uma busca insaciável, o que tende a incitar um processo autodestrutivo. Além disso, ela cita a ascensão da chamada era da “cultura da vulgaridade”, segundo a qual é aceitável portar-se com arrogância e grosseria e que mulheres ajam como objetos sexuais, considerando a si próprias como interessantes e poderosas e julgando que exibir seus corpos é a máxima expressão de liberdade sexual.  Gosto especialmente desse ponto por ele me remeter a um dos ensaio “É Chique ser Grosseiro (Uncouth Chic)”, do britânico Theodore Dalrymple, presente no excelente “A Vida Na Sarjeta – O Círculo Vicioso da Miséria Moral”. Nesse texto, o psiquiatra fala sobre como a propaganda atualmente glamouriza o estilo de vida e a postura diante o mundo da underclass, estilo segundo o qual mesmo pessoas bem nascidas eem educadas adotam como marca registrada uma “postura e expressão facial de estúpida hostilidade geral a tudo e todos. […]”, o que caracterizaria um novo estilo: o grosseiro-chique.

Salta aos olhos ainda o fato de a gangue de Hollywood ter gozado de prestígio/empatia entre muitos populares que consideravam merecido celebridades serem roubadas pelo simples fato de serem ricas. Como já mencionei em outros textos, esse é um raciocínio cretino e invejoso, visto que a economia não é um jogo de soma zero no qual para um ganhar outro necessariamente tem de perder. Muito pelo contrário! São os ricos que promovem a mais eficiente forma de distribuir riqueza, que é a geração de empregos. Sem acumulação de capital, não há investimento; sem investimento, não há produção; sem produção, não há empregos.

E essa mentalidade também explica o fato de que, durante o julgamento da gangue, os jurados inquiriram às vítimas por que elas não tinham uma segurança melhor, parecendo sugerir que as vítimas eram de alguma maneira culpadas por não proteger seus bens valiosíssimos (raciocínio tão picareta como culpar minissaia e decote por um estupro quando o maníaco é culpado; culpar armas por mortes com armas de fogo quando o culpado é o maníaco que puxou o gatilho; ou culpar quem anda nas ruas do Rio com o celular nas mãos pelo furto cujo culpado é o bandido). Felizmente, a promotora adjunta do caso, Sarika Kim, foi taxativa quanto a isso:

E daí que as vítimas podem substituir seus bens roubados? Isso não deve ser levado em consideração. […] Isso não justifica alguém entrar e roubar suas coisas. Logo, você não precisa ligar o alarme. Você não precisa trancar a porta. Não é certo alguém entrar e se apoderar de seus bens. Então esse não é um fator do roubo com violação de domicílio. […] Não é um fator que as vítimas, nesse caso, sejam celebridades. Não importa. O fato de que você pode substituir o bem não importa.

O livro ainda conta quem foi punido e quais as punições impostas – injustas, ao meu ver, visto que quem confessou desde o princípio recebeu a maior pena, embora tudo indicasse que o cérebro ardiloso por trás de tudo era outro. Dou nota 8/10 para o livro porque acredito que havia mais pontos a se explorar no caso, sobretudo algumas participações no crime que não ficaram muito claras.

Thaís Gualberto

Economista & Escritora. 25 anos, apaixonada por ficção, música, política e coisas fofas. Aqui vocês terão resenhas e, principalmente, textos ficcionais escritos por esta que vos “fala”.

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9 thoughts on “Resenha: Bling Ring – A Gangue de Hollywood

  1. Só 5 livros pra concluir sua meta? Eu fiquei com uma pilha pra ler esse ano. aksjdhaksjdh
    Essas promoções de livro <3
    Gente, eu não sabia que era história real! Adoro! Nas próximas promoções de livros vou procurar!
    Mano, você faz conexões muito todas nas suas resenhas. Quero ser você quando eu crescer, sério! Sensacional, como sempre!

    PS: Você nunca vai me aceitar no Facebook? akjshdkajshdk




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  2. Muito interessante sua resenha do livro, eu só vi o filme (que não achei lá grandes coisas). Mas pela sua resenha parece que o livro aborda bem mais do que só a história dos autores dos crimes, fazendo uma análise mais profunda e contando bem o que aconteceu depois que foram pegos, achei interessante!




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  3. Muito boa essa resenha!
    Confesso que fiquei interessada pelo livro por causa do filme, que sigo sem ter visto. Saber que o livro é bom e traz tantas reflexões interessantes para quem, como nós, seguirá acompanhando essa sociedade de jovens imersos no desejo da fama e da riqueza sem precisar de trabalhar. E claro, para eles né…
    Sugestão de leitura anotada aqui!




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