Resenha: Dançando Sobre Cacos de Vidro

Todo casamento é uma dança: complicada às vezes, maravilhosa em outras. Porém haverá momentos em que vocês dançarão sobre cacos de vidro”

Posso afirmar sem titubear que esse foi o melhor livro que li em 2015. Em seu romance de estreia, a enfermeira especializada em psiquiatria, Ka Hancock, conseguiu, ao mesmo tempo, ser visceral e sutil. Comoção e surpresa, aliás, definem bem o que encontramos nessa belíssima história.

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Autora: Ka Hancock

Editora: Arqueiro

Páginas: 329

Onde encontro: Saraiva (aproveitem o preço promocional!); Americanas (também em promoção!); Livraria Cultura; Livraria da Travessa.

Lucy Houston e Mickey Chandler formam um casal que definitivamente não deveria ser um casal; a genética por eles herdada era como uma bomba preste a ser detonada: Lucy tem um histórico familiar de câncer de mama agressivo, que levou embora sua avó, sua mãe e sua tia; Mickey, um grave transtorno bipolar que o torna dependente de fortes medicamentos e o obriga a ocasionalmente passar algum tempo internado na ala psiquiátrica de um hospital. Quando eles se conhecem, no 21º aniversário dela, a magia entre os dois é imediata.

Apesar da oposição de sua irmã mais velha, Priss, e da violenta crise que presenciou Mickey ter ainda durante o namoro, Lucy contrariou a lógica, seguindo ao lado de Mickey e casando-se com ele. E para fazer o relacionamento dar certo, firmam um contrato por escrito, no qual Mickey promete tomar os remédios de acordo com o prescrito por seu psiquiatra e Lucy promete não culpá-lo pelas coisas que ele não consegue controlar.

Com poucos anos de casamento, Lucy descobre um tumor maligno em um dos seios e quase morre durante o tratamento, o que leva Mickey a uma terrível crise, após a qual eles decidem acrescentar mais uma regra ao contrato: jamais teriam filhos para não transmitirem suas heranças genéticas. E é a partir dessa regra que a história se desenrola: apesar de ter-se submetido a uma laqueadura alguns anos antes, no 11º aniversário de casamento, Lucy, durante uma consulta de rotina, descobre-se grávida. E tudo muda em relação a tudo que ela e Mickey esperavam de sua relação.

Ambos choramos o tempo todo e nos apegamos ao momento. Quando terminou, nos demos conta de que provavelmente havia sido a última vez.”

Na verdade o livro começa com Lucy descrevendo sua  relação com a morte, uma figura que ela sempre via pairar à espreita às vésperas do fim, desde o 12º aniversário de sua irmã mais velha, quando viu a morte próxima de seu pai e, poucos dias depois, ele morreu baleado. O livro, narrado integralmente em primeira pessoa, alterna o presente com flashbacks e a narrativa do ponto de vista de Lucy com as bem datadas anotações de Mickey. Boa parte dos flashbacks, a propósito, é narrada desde o ponto de vista de Mickey, que em suas anotações lembra como conheceu Lucy, como se apaixonaram, a primeira crise que ela presenciou, o casamento deles, a doença de Lucy, as experiências dele na reabilitação. Eu, particularmente, AMO esse recurso, pois acredito que torna a história mais completa e factível, visto que nos leva a ter um maior envolvimento com cada protagonista.

Verdade que sua mente era comprometida por um DNA defeituoso, sem falar nas drogas para neutralizar esse código genético. […] Apesar disso, ali estava ele, um homem com um grande coração e enorme compaixão ajudando a aplacar o medo de um paciente.”

A partir disso, os fatos se desenrolam de maneira intensa e surpreendente. Infelizmente, se eu falar mais estarei dando spoilers, o que eu não gosto de fazer. O que posso dizer é que “Dançando sobre Cacos de Vidro” é de uma sensibilidade magistral e Ka Hancock consegue fazer com que realmente nos coloquemos no lugar de cada um de seus personagens tão bem construídos e que nos surpreendamos com os caminhos pelos quais as vidas de Lucy e Mickey são conduzidos. É uma história com momentos felizes, momentos tristes, momentos profundamente dolorosos e, acima de tudo, extremamente real. E eu me comovi muito com cada alegria e tristeza narrados; eu me apeguei àqueles personagens de uma maneira que fazia tempo eu não me apegava (desde “Pássaros Feridos”, que li em ago/2014) e ria com seus risos e chorava com seus prantos. A comoção foi inevitável e eu constantemente sentia meus olhos inundarem a cada linha que eu avançava. E é isso que eu gosto em livros; que os livros me façam sentir como os personagens, que aquela história se torne palpável para mim, e Ka Hancock o fez com maestria.

Enquanto eu estava deitada ali, nas garras da agonia, algo se agitou contra as minhas pálpebras, quase me fazendo engasgar. […] Era ela.”

Esse foi de longe o melhor livro que li em 2015 e, sem dúvidas, o melhor que li desde “Pássaros Feridos”.  10/10 para essa obra prima que PRECISA virar filme urgentemente para que mais pessoas conheçam essa bela história que é uma bela e profunda história de amor e família.

Thaís Gualberto

Economista & Escritora. 25 anos, apaixonada por ficção, música, política e coisas fofas. Aqui vocês terão resenhas e, principalmente, textos ficcionais escritos por esta que vos “fala”.

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19 thoughts on “Resenha: Dançando Sobre Cacos de Vidro

  1. Adorei a resenha Thaís!! E se este foi considerado o melhor livro que você leu em 2015, deve ser realmente muito bom! Irei acrescentar na minha listinha hehe. E amei sua resenha, achei bem explicativa e super me interessei pela história :))
    Beijos!




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  2. faz taaanto tempo que não me apego a um livro como você se apegou a esse! que saudade disso… vou por na minha lista de desejados do skoob pra não esquecer de ler. adoro histórias tristes (mesmo sem saber o final, já dá pra sentir a melancolia) e o título dessa me chamou a atenção 😀

    boas leituras e que venham mais livros memoráveis!

    http://www.pe-dri-nha.blogspot.com




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  3. Faz um tempo que tô pensando em incluir esse livro na minha lista e depois de ler sua resenha definitivamente farei isso 🙂
    Gosto tanto de livros que nos deixam envolvidos com os personagens!
    Já tô prevendo que sofrerei horrores durante a leitura hahaha
    Mas acho que mesmo assim vai valer a pena!




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