Resenha: Demi Lovato – Tell Me You Love Me 

Lançado em 27/10,  “Tell Me You Love Me” é o mais recente álbum da cantora americana Demi Lovato. Para esse trabalho, Demi apostou em seu mekhor: os vocais. Sim, em tempos de electropop e assobios artificiais nos arranjos, TMYLM é um álbum verdadeiramente Vocal Pop, com forte influência R’n’B e Demi mostrando o melhor de suas extensão e potência vocal, criando o seu mais coeso álbum até a data (ao menos em termos de melodia) e indo em direção totalmente oposta a de seu trabalho anterior, “Confident”.

O encarte que acompanha o CD é bastante simples, com poucas, porém bonitas, fotos em preto e branco da cantora e também com as letras de todas as faixas. O destaque fica por conta da arte do disco em si que, sobre o fundo preto, traz bem desenhadas rosas em um tom cinza escuro (imagino que fazendo alusão a tatuagem de rosas de Demi).

Sorry Not Sorry: Primeiro single do álbum, “Sorry Not Sorry”, lembra o R’n’B do começo dos anos 2000 (Destiny’s Child, talvez?) e não me conquistou à primeira audição justamente por eu achar demasiadamente R’n’B. Pois bem, a música grudou e eu prestei atenção na letra (vingativa, puro ódio haha) e nos vocais da Demi e concluí que a faixa é simplesmente INCRÍVEL! E excelente escolha para um primeiro single, já que é enérgica e contagiante. E óbvio que já a dediquei a alguma personagem… A versão acústica presente como bônus da edição Deluxe do álbum é simplesmente fantástica.

Tell Me You Love Me: Faixa título do álbum, TMYLM é uma súplica, uma demonstração quase obsessiva de amor (ou seria desejo nesse contexto?), na qual a potência vocal de Demi incorpora toda a intensidade da letra e, em performances ao vivo, chega a arrepiar. Interessante notar também que a música é claramente influenciada pelo gospel americano, com um coro quase transcendental ao fundo. Na versão do álbum, a introdução remete à “Confident“, faixa título de seu ábum de 2015, enquanto no live para o Vevo a introdução é tocada em um órgão.

Sexy Dirty Love: Música mais pop do cd e uma das mais divertidas, inicia-se com uma batida elástica, com Demi soando atrevida e lasciva, em uma demonstração mais superficial e bem-humorada de obsessão que na faixa anterior. Tenho o ligeiro pressentimento de que esta música será um dos singles e do álbum e que, se assim for, será mais um êxito na carreira de Demi. A música ainda me lembra de ritmos dos anos 80, então é óbvio que amei… <3

You Don’t Do it for Me Anymore: Uma das mais pungentes baladas da carreira de Demi (não supera “My Love is Like a Star“), é uma música em que a cantora reflete sobre os próprios vícios e dificuldades que enfrentou ao longo da vida. E mais uma grandiosa demonstração de sua capacidade vocal. Em algumas notas e acordes, lembra-me de “Stay“, na versão da Delta Goodrem.

Daddy Issues: Mais um momento pop do álbum, mais um momento totalmente oitentista. Aqui temos a narrativa de uma jovem apaixonada por um homem muito mais velho e como os problemas dela com o próprio pai influenciam a relação e como ela é obsessiva pelo companheiro.

Ruin the Friendship: Demi aqui soa mais suave e tranquila que em outras faixas, acompanhada por um arranjo maduro, elegante e lascivo. Como sugere o título da música, os versos são um convite para “arruinar” uma amizade transpondo os limites desta com tensão e envolvimento sexual.

Only Forever: A suavidade é mantida, em perfeita continuidade com Ruin the Friendship. Aliás, a própria Demi considera Only Forever como uma continuação de RTF. Apesar de ser uma bela música tanto na letra como na melodia, confesso não apreciar muito os efeitos de ecos e de gotas de água caindo.

Lonely (fest Lil Wayne): Única pareceria presente na versão standard do álbum, Lonely é, provavelmente, a música mais dramática desse trabalho, embora sua melodia não seja tão dura e triste quanto as palavras entoadas por Demi.

Cry Baby: Coro estilo gospel, sonoridade anos 90 (alguns acordes lembram vagamente “Run, Baby, Run“, da Sheryl Crow), refrão  explosivo e visceral comparado ao restante da música. Guitarra em destaque perto do fim, vocais sensacionais de Demi e uma elegância melódica ímpar. Espero ansiosamente que se torne single.

Games: Aqui é evidente que a influência predominante é a do Hip-Hop, o que não me agrada muito. E, mais uma vez, uma música obsessiva, porém, aqui, em tom agressivo, diferentemente das que a antecederam.

Concentrate: Outra vez a influência gospel no coro e no arranjo, porém acompanhada por uma letra extremamente erótica, belamente erótica, o que casa à perfeição com os vocais intensos e a melodia quase etérea.

Hitchhiker: Tanto a introdução como a melodia da música como um todo assemelham-se bastante a “Concentrate” (mesmos compositores, inclusive), entretanto “Hitchhiker” é a canção mais “fofinha” do álbum, sendo uma espécie mais madura de “Give Your Heart a Break“, sucesso do álbum “Unbroken”, de 2011.

Instruction: Uma das faixas bônus da versão Deluxe do álbum, Instruction é, na verdade, uma participação de Demi em um trabalho de Jax Jones. E isso explica a música, repleta de influências da música latina, destoar tanto das demais do álbum. O timbre similar ao de Rihanna perto do fim da música é da rapper Stefflon Don.

No Promises: Parceria de Demi com Cheat Codes, a versão acústica de No Promises presente como bônus da edição Deluxe é bela e suave. Em sua versão de estúdio, a música conta com toques eletrônicos, mas nem mesmo isso diminui a sua suavidade, exceto pelo momento em que há uma espécie de “solo” dos efeitos eletrônicos. Excelente que no álbum tenhamos a versão acústica.

Smoke and Mirrors (Target Exclusive): Introdução ao piano, música praticamente voz e piano em toda a sua extensão. Uma Demi intimista como em nenhuma outra faixa desse trabalho.

Ready for Ya (Target Exclusive): Música cheia dos assobios tão em moda no pop nos últimos anos, RFY não consegue ser um grande destaque do álbum. Provavelmente, por isso mesmo, não fez parte da tracklist da versão standard.

Visceral sem dúvidas é o melhor adjetivo para qualificar “Tell Me You Love Me”, cujo tema subjacente sem dúvidas são as diferentes maneiras como a obsessão por um objeto de desejo pode manifestar-se. Mais que nunca, em TMYLM, Demi conseguiu demonstrar o quão potente é em termos vocais, o que, ao menos em minha opinião, torna a americana a melhor vocalista de sua geração, tal como o foi Christina Aguilera no início dos anos 2000.

Um outro ponto interessante sobre o novo trabalho de Demi é que ela teve grande participação como compositora e conseguiu entregar letras maduras, capazes de valorizar tanto seus atributos vocais como os histriônicos (é possível sentir uma forte emoção em todas as músicas), e um forte uso do erotismo bem construído, não sendo vulgar em nenhum momento.

Além disso, considero importantíssimo destacar que, embora ferrenha militante feminista (arghh) e do Partido Democrata (sad reactions only), Demi não cedeu à politização que acometeu os trabalhos de tantos outros artistas desde a épica derrota de Hillary Clinton nas eleições de 2016. (Sim, estou falando de Katy Perry, quem surtou completamente e entrou em uma espiral de autodestruição e músicas disgusting por causa de política). Isso, por si só, ao menos para mim, eleva e muito o valor desse excepcional trabalho da artista, que entregou beleza e entretenimento em um momento em que a maioria do ramo está preocupado apenas com a “lacração” e não alienou a parte do seu público que não está no mesmo lado político que ela.

Sem dúvidas, TMYLM é um 10/10 com pleno potencial para ser um dos grandes sucessos de 2017 e vencedor do Grammy na categoria Vocal Pop em 2018 (please, please, please, embora vá concorrer, muito provavelmente, com o também excelente “Meaning of Life”, de Kelly Clarkson).

Favoritas: Cry Baby, Sexy Dirty Love, Daddy Issues, Concentrate.

Desnecessárias: Games, Ready for Ya.

Demi Lovato - Sorry Not Sorry

Resenha: Paramore – After Laughter

“After Laugther”, quinto álbum de estúdio da banda americana Paramore, foi lançado em maio de 2017 e marca o retorno de Zac Farro como baterista oficial da banda. Com uma sonoridade pop e oitentista e clipes esfuziantemente coloridos, a proposta da era soa bastante distinta daquilo que já vimos a banda fazer, mas ainda assim nos traz mais um excelente trabalho de Hayley Williams e cia. Disponível no spotify, recomendo escutarem por lá enquanto leêm o que achei do álbum. O encarte do álbum é bastante simples, contendo apenas as letras das músicas e nenhuma foto dos integrantes da banda, sendo amarelo, lilás e rosa claro os tons predominantes, havendo duas páginas pretas com escritos em rosa e branco.

ParamoreHard Times: Provavelmente a mais oitentista da tracklist, “Hard Times” é divertida, cativante, grudenta e ainda conta com um clipe maravilhoso e que rendeu excelentes gifs. Muito diferente da maior parte do catálogo da banda, conquistou-me imediatamente, o tipo de música que me faz cantarolar o refrão desde a primeira audição, mas, certamente, deve ter enfurecido boa parte dos fãs “raiz” da banda, acostumados com um som mais pesado e revoltoso. Anyway, considero uma excelente escolha para primeiro single.

Rose-Collored Boy: A segunda faixa do álbum é mais uma que transporta o ouvinte aos anos 80, a um clima quase “Sessão da Tarde”. Dá até para imaginar Hayley Williams novamente com cabelos coloridos (atualmente, ela está loira) e indumentária e trejeitos dignos dos que Cyndi Lauper apresentava na década do exagero. Apesar da composição mostrar uma sutil crítica aos exageradamente otimistas, a sonoridade aqui é tão alegre e contagiante quanto a de “Hard Times”.

Paramore Told You So: “Eu disse…” que esse era um álbum bastante oitentista e a terceira faixa e segundo single lançado segue nessa linha. Aqui temos mais uma boa música e um excelente videoclipe, com a vocalista usando um batom vermelho lindo em algumas das cenas (como a imagem em destaque nesse post). Gosto como o timbre de Hayley soa mais grave nesta canção que nas faixas anteriores.

Forgiveness: A atmosfera “Sessão da Tarde” persiste aqui, lembrando-me até mesmo de algumas coisas da trilha sonora da série “Stranger Things”. Mas a associação imediata que fiz ao escutar “Forgiveness” pela primeira vez foi com “Everybody Wants to Rule the World“, do Tears for Fears. E eu adoro isso.

Fake Happy: Voice-off, produção stripped. Hayley Williams soa suave e intensa na introdução da quinta faixa de “After Laughter”, mas logo surge o arranjo 80’s pop e um explosivo refrão sobre aparentar felicidade mesmo quando não se está feliz e como todos já passamos por isso. Uma excelente letra e uma enérgica melodia sobre frustração.

26: Mais um início meio unplugged, com voz, violão e um eco sutil.  Possivelmente temos aqui os melhores vocais de todo o álbum, ao menos, é onde esses mais se destacam, dada a maior suavidade da melodia, mantida mesmo quando outros instrumentos somam-se ao violão. Uma bela composição sobre a importância de sonhar mesmo que a realidade parta seu coração.

Pool: Sininhos? A introdução remete-me à mensagem que anuncia “Chamada a cobrar…” ao atendermos um telefonema, mas logo guitarra e bateria fazem-se presentes na mais apaixonada canção do álbum. E eu aqui, imaginando uma festa à beira de uma piscina como pano de fundo para um possível videoclipe para a música (afinal, o título não é nada sugestivos), no melhor estilo festa na piscina de séries como “Sabrina, Aprendiz de Feiticeira” ou do videoclipe de “Imitation of Life“, do REM.

Grudges: Conta a história da amizade de Hayley Williams e Zac Farro até a saída dele da banda, clamando basicamente que não vale à pena se perguntar sobre o tempo em que se mantiveram afastado, mas que sim importa o presente em que outra vez estão próximos – uma letra com a qual todos nos identificamos em algum momento da vida e em relação a algumas pessoas. Inclusive, Zac faz backing vocals na música.

Caught in the Middle: Uma canção sobre envelhecer e sobre o processo é, muitas vezes, confuso e atordoante, olhe-se para frente ou para trás. Ainda assim, passa a mensagem de maneira bem-humorada, sobretudo no animado refrão.

Idle Worship: É bastante interessante e peculiar como mesmo as canções mais pessimistas são cheias de energia e cativantes. Talvez seja a sonoridade adotada, talvez os vocais e criatividade ao compor de Hayley Williams ou mesmo a combinação disso tudo, o que é mais provável. OH LA LA LA LA LA LA…

No Friend: A música mais “pesada” de todo o álbum, com uma sonoridade inquieta e destoante das demais da obra, “No Friend” é a que mais “conversa” com os álbuns anteriores da banda e, apesar da inquietude melódica, agrada. A letra é meramente murmurada por uma voz masculina (Hayley não se faz vocalmente presente em nenhum momento, embora assine a faixa, junto com Taylor York e Aaron Weiss), quase como se fosse ela a embalar a melodia, e não o contrário. Então  a letra começa a ser entoada em um estilo meio pregação, meio palavra de ordem de protesto de militantes de esquerda e é realmente isso o que a canção parece ser quando analisamos a letra: um protesto político por meio de complexas metáforas. Particularmente, não aprecio esse tipo de politização da música, não por expressarem posições distintas das minhas, na maior parte das vezes, mas porque amo música como entretenimento e detesto vê-la politizada. De todo jeito, gosto muito do arranjo da faixa e adoraria uma versão puramente instrumental dela.

Tell Me How: Iniciada com fortes notas ao piano, traz os incríveis vocais de Hayley mais uma vez em destaque e como um calmo alento após a raivosa “No Friend”. Diz-se que a música foi composta como desabafo sobre as baixas que a banda sofreu ao longo dos mais de dez anos de existência, sobretudo sobre a saída do antigo baixista e fundador Jeremy Davis. A segunda metade da música parece contar com o pulsar de um coração ao fundo e o piano volta intenso ao final da música, que também marca o fim do álbum.

ParamoreApesar da sonoridade predominantemente alegre, “After Laughter” é um álbum com letras bastante maduras e repletas de metáforas habilmente construídas. Além disso, o trabalho reflete a segurança e coragem dos membros da banda, uma vez que experimentam um estilo bastante diverso do que predominou nos trabalhos anteriores, algo similar ao último trabalho do Linkin Park, “One More Light”, também lançado este ano. Embora “Paramore”, de 2013, continue sendo meu álbum favorito da banda, “After Laughter” é um trabalho igualmente excelente e coeso, ademais de ser mais uma demonstração das qualidades de Hayley Williams como vocalista e compositora. É um 9/10 recomendadíssimo, mesmo para os que preferiam a sonoridade anterior da banda.

Favoritas: Rose-Colored Boy, Forgiveness, Pool

Desnecessárias: No Friend, Idle Worship

Daddy’s Little Girl

Os dois textos abaixo fazem parte, respectivamente, de “Centelha” e “Primavera”, dois dos livros que escrevo, e narram um pouco da relação entre Eduardo e sua filha mais nova, Mariana. Eis a minha singela homenagem aos grandes pais por aí, como o meu.  💗 E se quiserem ler um pouquinho mais sobre pai e filha, visitem “The Right Man / Open Arms“, que escrevi ano passado.

_ Filha, o que faz aqui? Está muito frio, querida…
Notar a presença do pai foi-lhe quase um susto; enxugou as lágrimas apressadamente e ergueu o rosto. Eduardo sentou-se ao seu lado e abraçou-a.
_ Precisava afastar-me um pouco de todos e meu quarto ainda é demasiado próximo… – murmurou Mariana, após um profundo suspiro, com a cabeça recostada ao peito do pai.
_ Entendo… Eu também precisava me afastar… – comentou, rindo algo nervoso, mas ainda assim contemplativo. – O que houve?
_ Bem, não somos a mais exemplar das famílias… Em algum momento é óbvio que vamos nos desentender… – disse, evasiva.
_ Mariana, entre nós nunca houve segredos, de nenhuma das partes… Se foge do assunto é porque foi mais grave do que pretende fazer parecer… – advertiu Eduardo, afagando-lhe o cabelo. – Por que não me conta?
Suspiros. Mariana estava relutante. Não adianta não falar… Papai não vai desistir…
_ Desculpe-me, papai, não gosto de preocupá-lo… – confessou, mordendo levemente o lábio inferior. – É que me dói tanto que meus irmãos sejam tão incompreensivos com você… Você é tudo o que temos, sozinho é o melhor pai do mundo, o nosso maior incentivador, nosso maior crítico, nosso maior ídolo, nosso melhor exemplo e tudo em que Leonardo e Patricia pensam é neles mesmos… Não falo de Alessandro porque ele é diferente, embora não exponha, sei que pensa como eu, que apenas não quer ficar mal com Paty e Leonardo, mas se você é tudo o que temos além de um ao outro, é a você quem devemos respeito, veneração, admiração, carinho, preocupação… E eles não se dão conta, e tia Amalia tampouco, de que você está vivo e que mais que ter direito, merece ser feliz, merece um novo amor…
Sem nenhuma palavra, Eduardo abraçou Mariana com mais força. Minha querida e pequena Mariana… Em nada se parece com Rosa, em nada…
_ Não se martirize por mim, querida…
_ É inevitável, papai… É tão, tão triste perceber que meus irmãos não te valorizam como merece…
E eu realmente não mereço… Meu único mérito é tê-los criado, mas nada diminui minha culpa por tê-los afastado da mãe…, pensou Eduardo, escutando calma e pesarosamente à filha.
_ Você sempre foi o melhor para nós, presente, dedicado… Não é justo que eles queiram impedir a felicidade de quem apenas nos dá orgulho e alegria… – exclamou, veemente, com lágrimas vertendo silenciosa e raivosamente.
_ Mariana, eles não têm culpa… Fazem pela memória da mãe, acham que María Luisa é uma intrusa… É natural…
_ Não, papai, não é natural… E não é porque eu tenho certeza que, apesar de sua proximidade com María Luisa, nunca vai amá-la tanto como amou a mãe de meus irmãos… E é esse sentimento, que você sempre terá, somado ao dos meus irmãos, que garante que Virginia sempre terá respeitado o seu sagrado lugar em nossa família… O lugar como única mulher a quem você de fato amou em toda a sua vida…
Como pode Mariana saber tanto sem nada saber?, perguntou-se Eduardo, intrigado, porém não surpreso com a aguçada percepção de Mariana. Se você conhecesse a verdade, Mariana… Se ao menos com você eu pudesse compartilhar esse fardo… Mas não seria justo, você é jovem e nada tem a ver com o passado…
_ E o pior de tudo é que quando te defendo, julgam-me insensível, fazem-me lembrar que sou filha de Rosa e que Rosa não chega sequer aos pés de Virginia, fato com o qual concordo, obviamente, pois sei que não sou fruto de um amor… Mas eles precisam lembrar-me disso? Não, não há necessidade… Às vezes sinto-me tão deslocada em relação a eles… E a vida é tão irônica! Minha mãe está viva e nunca se importou comigo, nunca mereceu a palavra mãe. Meus irmãos tiveram uma boa mãe, você uma boa esposa e ela se foi precocemente… É injusto, papai… Muito injusto…
Entregue ao pranto e nos braços do pai, Mariana calou-se. Se a ela doía a solidão do pai, a ele doía ainda mais a tristeza dela ou de qualquer um dos filhos. Todavia, era Mariana a mais próxima dele, a que mais se abria, a que mais demonstrava preocupação, a mais compreensiva. Tão parecida com Victoria e nem sequer é filha dela… Será um castigo ou uma benção?
_ É claro que não deveriam lembrá-la, sabem que te machuca, deveriam calar… Acho, entretanto, que estavam nervosos por causa do meu anúncio… Você já tem 17 anos e seus irmãos sempre foram tão bons com você, nunca fizeram distinção embora saibam desde bem pequenos que você não é filha da mãe deles… O que importa é que vocês são meus filhos e eu os amo igualmente e são o que de mais valioso eu tenho… Não dê atenção às palavras vãs ditas em momentos de exaltação… E mesmo que eu nunca tenha amado Rosa, eu amo a maravilhosa filha que ela me deu…
Mariana esboçou um tímido sorriso. Tinha uma grande adoração pelo pai; venerava-o, idolatrava-o. Escutá-lo era sempre confortante.
_ E você, papai, por que veio para cá? – perguntou, com um curioso e inocente olhar. – Está frio…
Seus olhos verdes contemplavam fixamente os castanhos escuros da filha. Os olhos… A cor dos olhos é a única diferença; a expressão é a mesma… O sorriso, o cabelo, a dedicação… Queria que realmente não houvesse segredo algum entre nós…


Recostado à cama, Eduardo suspirou profundamente. Um tímido sorriso e poucas palavras como resposta.
_ Ah, Victoria… Os anos são implacáveis…
_ Por que está dizendo isso, querido? – quis saber, interrompendo brevemente o ato de se pentear.
_ Por que parece que foi ontem primeira vez em que tive Mariana em meus braços e agora ela já vai se casar, formar a própria família… É difícil aceitar que a minha pequena vai partir tão brevemente…
_ Ela já não é uma criança, Eduardo… Eu mesma me casei aos dezoito anos…
_ Não é igual, Victoria… Seus pais já eram falecidos, você não tinha ninguém além de seus irmãos… Tinha de criar os próprios vínculos, vínculos que a vida lhe arrancou dura e precocemente, assim como em meu caso, que fui criado por minhas tias… Enquanto Mariana tem a todos nós…
“E ela foi uma criança tão linda, tão especial, educada, inteligente… Ela adorava ir para a empresa comigo… Acordava cedo e pedia para tia Alice vesti-la e colocar no cabelo um laço que combinasse com o vestido, quase sempre florido. Na hora em que íamos tomar o café da manhã me abraçava, me beijava e depois dizia que ia comigo para empresa, porque era lá onde ela ia trabalhar quando crescesse… E lá ia ela no carro comigo… Eu sempre levava Leonardo e Pedro quando eles chegavam do colégio, pois eles também se interessavam… E quando chegávamos, ela alegrava a todos com seu sorriso ingênuo de menina de quatro, cinco anos… Fazia questão de me dar a mão, sentia-se a primeira-dama do Grupo Arriaga… Com a outra, ela sempre carregava uma boneca… E depois ficava sentada em um cantinho do escritório, brincando com a boneca da vez e também com Mercedes, que Cristina fazia questão de levar todos os dias para que tomasse gosto pelo trabalho e também para ficar junto de Mariana… Aquelas sempre se adoraram, as verdadeiras melhores e inseparáveis amigas…”
“De vez em quando ela largava a brincadeira e sentava no meu colo… Começava a fazer perguntas, quase sempre as mesmas… E eu adorava aquilo… E ela sempre tão carinhosa… Tão adorável…”
Eduardo tinha lágrimas pelo rosto. Apesar dos anos, tinhas aquelas lembranças nítidas, vivas em sua memória. Era como um filme, cena após cena. Victoria tampouco contivera as emoções. Não vivenciara cenas daquele tipo, e era tudo o que ela mais desejara desde menina.
_ Isso para não falar em quando Mariana era apenas um bebê… Ela nasceu em um período difícil para empresa, pois Cristina estava a poucos dias de dar a luz e se afastaria tão logo se iniciassem as contrações… Eu queria estar todo o tempo com minha filha-recém nascida, mas não podia por que não tinha a quem confiar a empresa… Então tia Alice ia todos os dias comigo para cuidar de Mariana, pois eu queria que ela estivesse próxima de mim, porque ela tinha sido praticamente abandonada por Rosa e precisava mais de mim naquele momento que qualquer um de meus outros filhos… Tudo o que eu fazia era por eles, principalmente por ela… Minha menininha de olhos vivos, atentos; dedos pequeninos e muito amor para dar e receber…
“Foi tão gratificante e emocionante ouvi-la balbuciar “papai” quando tinha sete meses… E os primeiros passos, eu estava perto… Não há dinheiro capaz de pagar por momentos como estes… O primeiro dentinho que nasceu; o dia em que a escutei ler pela primeira vez, aos quatro anos; a primeira tentativa de desenhar a família; o primeiro dente que caiu; a primeira virose; o primeiro tombo; a primeira de inúmeras notas máximas no colégio; a primeira apresentação de canto; a primeira festa de formatura, ainda na escola primária; o primeiro salto alto; o primeiro estojo de maquiagem; o primeiro daqueles dias que só as mulheres conhecem; o primeiro beijo; o primeiro namorado; a festa de quinze anos; a decisão de qual carreira seguir; a formatura no colegial… Todos momentos nos quais eu estive com ela e ajudei-a a superar, no caso dos mais difíceis – os quais nem todos eu era a pessoa mais adequada para orientá-la, mas ainda assim eu me esforçava para merecer o título de melhor pai do mundo que ela sempre fez questão de ostentar com tanto orgulho e alegria…”
“E agora ela está noiva… Mais um momento que eu presenciei… E eu sei que ela está abalada… Miguel antecipou a data do casamento e ela custou a entender os motivos dele… Sei que ela compreendeu, que já está tudo bem entre os dois, que eles se amam tão intensa e verdadeiramente como nós dois nos amamos, no entanto ela ainda não aceitou… Eu sei que ela não se ente pronta para exercer as responsabilidades nas quais implica o matrimônio…”

Resenha: O bebê de Bridget Jones

Era outubro de 2016 quando, acompanhada por uma de minhas melhores amigas, assisti o terceiro filme da saga da queridíssima Bridget Jones, personagem criada pela jornalista britânica Helen Fielding. Ao menos para mim, “O Bebê de Bridget Jones” foi, de longe, o mais hilário, divertido e surpreendente filme da série (apesar da ausência do mulherengo e irrecuperável Daniel Cleaver, interpretado por Hugh Grant nos dois primeiros filmes da franquia).

Quando assisti ao filme, não fazia ideia da existência do livro equivalente, afinal, o terceiro livro da saga, “Louca pelo Garoto” (que eu ainda não li), trazia uma Bridget mãe de um casal e viúva de Mark Darcy, o que, convenhamos, passa longe, muito longe, do enredo do terceiro filme. Eis que, algumas poucas semanas após ver o filme, deparei-me com o livro “Bridget Jones’s Baby”. E este, embora fosse o quarto livro da série, era o terceiro na linha do tempo da narrativa, ou seja, antecedia “Louca pelo Garoto”.

Tanto no filme como no livro, à beira dos 40 anos e ainda solteira alguns anos após ter terminado o noivado com Mark Darcy (Colin Firth nos filmes), Bridget descobre-se grávida após duas noites de sexo casual, tendo sido uma delas com Mark Darcy durante um batizado no qual foram padrinhos. Enquanto no filme a outra noite “romântica” Bridget dá-se junto de Jack Qwant (Patrick Dempsey), com quem passa uma noite em meio a um festival de música, no livro temos Bridget com Daniel Clever após ambos se encontrarem por acaso em um lançamento. A gravidez deixa Bridget completamente atônita: ela jurava ter-se protegido (mas eram camisinhas biodegradáveis) e, pior que isso, ela não faz ideia de qual deles seria o pai da criança.

Isso é justamente isso que provoca os momentos mais hilários da história, como o instante em que ambos descobrem que Bridget não sabe quem é o pai, as consultas com a obstetra, as aulas de parto e a sequência em que Bridget entra em trabalho de parto (BEST SCENE EVER!!). Infelizmente, muito do que torna o filme excelente não consta no livro. Não há o festival de música, não há Jack Qwant, não há a colega de trabalho divertidíssima de Bridget, não há a cantina italiana, não há tantos contratempos na sequência do parto e tampouco há dois homens desejosos de assumirem tanto a paternidade da criança como uma união com Bridget (digamos que com Daniel Cleaver presente, seria presumível). Assim, o livro, infelizmente, não é tão bom… Pouquíssimos são os momentos do livro que conseguem superar o filme (talvez, nenhum).

De maneira nenhuma o livro é ruim, embora fique aquém também dos dois primeiros volumes da série. A propósito, eu certamente teria apreciado bem mais o livro caso não tivesse assistido ao filme primeiro, o qual me gerou a expectativa de que o livro fosse ainda melhor, como geralmente verificamos nos casos de livros transformados em filmes. Ainda assim, é super divertido acompanhar Bridget pensando estar em menopausa precoce, sem poder ingerir álcool, não conseguindo manter uma dieta equilibrada e ponderando sobre quem seria um melhor pai para o seu bebê. Cabe ressaltar que, tanto no livro como no filme, Mark Darcy é absolutamente adorável (sim, eu o amo), diferentemente de Daniel Cleaver, que é simplesmente detestável e não me faz ter dúvidas de por quem torcer, diferentemente do que senti no filme, visto que Jack Qwant, assim como Darcy, é um fofo. Além disso, é lindo conhecer a Bridget mamãe, embora ela passe a maior parte da narrativa sem o bebê em seus braços.

De todo jeito, fica a expectativa quanto a um próximo filme e/ou livro para a série. Haverá um filme de “Louca pelo Garoto” ou fariam algo anterior a este, lançando também um livro equivalente, como aconteceu recentemente? O certo é que Bridget continuará a cativar-nos com suas loucuras e tormentos e Mark Darcy seguirá um dos melhores personagens masculinos de todos os tempos. ❤💕

6×1 – Objetos Favoritos

Não costumo fazer posts predominantemente fotográficos, mas o tema deste mês para o  Projeto Fotográfico do grupo “Vai um Café” conseguiu motivar-me a fazer um: “6×1 – Objetos favoritos da minha casa”. Já mostrei minhas várias coleções há cerca de um ano e meio aqui no blog, mas dessa vez o post será menos abrangente. Afinal, como resistir a mostrar um pouco das minhas coisinhas favoritas, dos meus pertences mais estimados?

Naturalmente, mais livros que qualquer outra coisa nesse post, mas faz sentido quando se trata de alguém que ama escrever e é leitora compulsiva. Difícil foi escolher apenas seis, mas enfim, vamos lá!

Pelúcias
Política

Downton Abbey

E O Vento Levou E O Vento Levou